20 de Julho, 2026

Você ainda separa os alunos que conversam? A ciência tem algo a dizer

Você ainda separa os alunos que conversam? A ciência tem algo a dizer

Por Vythoria Fobos

Interação

Crianças

Da próxima vez que alguém perguntar: 'Professor, pode fazer uma dupla de três?', talvez a resposta não precise ser um 'não' imediato. Lembre-se dessa leitura e faça uma boa dinâmica.  Afinal, a ciência mostra que as amizades dentro da sala de aula podem ensinar muito mais do que imaginamos.

Existe um velho ditado que diz que "ninguém aprende sozinho". Embora pareça apenas uma frase de efeito, ela está muito próxima do que a ciência descobriu sobre como o cérebro aprende.

Quando pensamos em aprendizagem, normalmente imaginamos livros, professores e avaliações. Mas um fator muitas vezes ignorado pode influenciar diretamente o desempenho dos estudantes: as amizades construídas dentro da escola.

Pesquisas em educação, psicologia e neurociência vêm demonstrando que aprender é, acima de tudo, um processo social.

O cérebro aprende melhor quando se sente acolhido

Antes mesmo de memorizar conteúdos, o cérebro precisa se sentir seguro para aprender. Emoções como medo, ansiedade e isolamento prejudicam processos importantes como atenção, memória e resolução de problemas.

É por isso que ambientes escolares acolhedores fazem tanta diferença.

O pesquisador Antonio Damásio, um dos maiores nomes da neurociência, defende que emoção e cognição caminham juntas. Em sua obra O Erro de Descartes, ele demonstra que as emoções não atrapalham o pensamento (elas são parte essencial dele). Quando um aluno se sente pertencente ao grupo, seu cérebro está biologicamente mais preparado para aprender.

Aprender também acontece nas conversas

Quem nunca viu um aluno entender um conteúdo depois que um colega explicou de um jeito diferente?

Esse fenômeno já havia sido descrito por Lev Vygotsky, um dos principais teóricos da educação. Segundo ele, grande parte do desenvolvimento acontece nas interações sociais. Sua teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal mostra que uma pessoa consegue realizar tarefas mais complexas quando recebe apoio de alguém que já domina aquele conhecimento.

Normalmente pensamos no professor como esse mediador, mas os colegas também desempenham esse papel. Muitas vezes, uma explicação dada por um amigo utiliza exemplos, palavras e referências mais próximas da realidade do estudante.

Aprender, portanto, também é compartilhar.

Amigos aumentam a motivação

Essa percepção também aparece em pesquisas mais recentes.

A educadora norte-americana Kathryn Wentzel, referência mundial em motivação escolar, demonstrou que estudantes que mantêm boas relações com seus colegas tendem a participar mais das aulas, persistir diante das dificuldades e desenvolver maior interesse pelos estudos.

Da mesma forma, a pesquisadora Allison Ryan, da Universidade de Michigan, observou que amizades positivas favorecem tanto o engajamento quanto a adaptação ao ambiente escolar. Em outras palavras, sentir-se aceito pela turma faz com que o estudante queira estar ali, e isso naturalmente influencia sua disposição para aprender.

Muito além das notas

Os benefícios das amizades não aparecem apenas no boletim.

Conviver com outras pessoas desenvolve competências que hoje são consideradas essenciais para a educação do século XXI, como empatia, comunicação, cooperação, respeito às diferenças e resolução de conflitos.

Não por acaso, essas habilidades estão presentes entre as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Trabalhos em grupo, projetos colaborativos, debates e atividades coletivas deixam de ser apenas estratégias metodológicas e passam a ser oportunidades reais de desenvolvimento humano.

O professor é quem cria o ambiente

É claro que nenhum professor consegue decidir quem será amigo de quem.

Mas ele pode construir um ambiente em que essas relações aconteçam de forma saudável.

Organizar atividades cooperativas, variar os grupos de trabalho, incentivar o diálogo, mediar conflitos e combater rapidamente situações de exclusão são atitudes que fortalecem o sentimento de pertencimento.

Pesquisadores da aprendizagem cooperativa, como os irmãos David e Roger Johnson, demonstraram que estudantes que trabalham juntos de maneira estruturada apresentam melhor retenção do conteúdo, maior capacidade de resolver problemas e melhores relações interpessoais do que aqueles que aprendem de forma excessivamente competitiva.

A amizade também precisa de cuidado

Isso não significa que qualquer amizade favoreça a aprendizagem.

Quando surgem panelinhas fechadas, exclusão ou bullying, o efeito pode ser justamente o contrário. O estudante isolado tende a participar menos, sentir-se inseguro e apresentar maior dificuldade para aprender.

Por isso, promover uma cultura de respeito e inclusão é tão importante quanto ensinar matemática ou língua portuguesa.

Aprender é uma experiência coletiva

Ao longo da história da educação, diferentes pesquisadores chegaram à mesma conclusão por caminhos distintos: aprendemos melhor quando aprendemos com outras pessoas.

As amizades criam confiança. A confiança estimula a participação. A participação fortalece a aprendizagem.

No fim das contas, talvez a pergunta não seja se amizade e aprendizagem têm relação.

A pergunta seja: é possível aprender profundamente sem construir relações significativas?

Tudo indica que não.


Formar conhecimento também é formar pessoas

A educação vai muito além da transmissão de conteúdos. Ela acontece nas relações, na escuta, na colaboração e no sentimento de pertencimento. Professores preparados para desenvolver tanto competências acadêmicas quanto socioemocionais contribuem para uma aprendizagem mais significativa e para a formação integral dos estudantes.

No CICEP, você encontra licenciaturas e pós-graduações pensadas para os desafios da educação contemporânea, preparando profissionais capazes de ensinar, acolher e transformar vidas dentro e fora da sala de aula.

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