07 de Setembro, 2026

Setembro Amarelo nos anos iniciais: como falar de emoções sem falar de suicídio

Setembro Amarelo nos anos iniciais: como falar de emoções sem falar de suicídio

Por Vythoria Fobos

Anos iniciais

Setembro Amarelo

Setembro Amarelo é, para a maioria das pessoas, sinônimo de prevenção ao suicídio. Mas quando o assunto chega às salas de aula do 1º ao 5º ano, a pergunta muda de figura: como trabalhar esse mês com crianças de 6 a 10 anos sem expor um tema pesado demais para a idade?

A resposta não está em explicar o que é suicídio. Está em construir, ano após ano, a base emocional que previne o sofrimento psíquico no futuro: reconhecer sentimentos, validar o que se sente, saber pedir ajuda e cultivar empatia pelo outro. É um trabalho de formação, não de campanha pontual.

A postura do professor importa mais que a atividade

Antes de pensar em atividades prontas, vale reforçar um princípio: o tom do educador pesa mais do que qualquer material didático. Cabe ao professor apresentar cada sentimento de forma lúdica, dar nome a ele e oferecer pistas concretas de como lidar com aquilo que a criança sente.

Alguns passos ajudam a estruturar essa conversa em qualquer roda de conversa ou aula:

  • Explicar em que situações cada sentimento costuma aparecer;

  • Validar o sentimento, deixando claro que não existe emoção "boa" ou "ruim";

  • Explicar, de forma simples, por que sentimos o que sentimos;

  • Oferecer ações práticas para lidar com aquele sentimento no dia a dia.

Um gesto simples, mas poderoso: o professor também pode compartilhar seus próprios medos, alegrias e tristezas com a turma. Isso humaniza a conversa e mostra às crianças que adultos sentem (e lidam com)  as mesmas emoções que elas.

Rotina, não um evento isolado

Um erro comum é tratar o Setembro Amarelo como uma palestra única no calendário escolar. O ideal é o oposto: ensinar a conversar, ouvir, respeitar, pedir ajuda e cuidar do colega deveria ser parte da rotina escolar o ano inteiro. O mês de setembro funciona melhor como um lembrete e um reforço visual do tema, não como o único momento em que ele é tocado.

Uma ideia simples de ambientação: montar um "cantinho de leitura e acolhimento" na sala, decorado de amarelo, com almofadas e livros à disposição. É um espaço onde a criança pode se retirar, respirar e ouvir uma história quando precisar de uma pausa emocional.

Livros e histórias que abrem a conversa

Para essa faixa etária, os livros mais eficazes tratam emoções por metáfora (cores, personagens, situações cotidianas) em vez de abordar diretamente temas pesados. Alguns títulos consagrados nesse trabalho:

  • O Monstro das Cores, de Anna Llenas: provavelmente o mais usado nessa época do ano. Depois da leitura, vale discutir o que cada cor do monstro representa e como podemos ajudar um amigo que está triste ou com raiva.

  • Quando me Sinto Triste, de Trace Moroney, e O Livro dos Sentimentos, de Todd Parr: ajudam a criança a identificar e nomear o que está sentindo.

  • Emocionário: diga o que você sente, de Cristina N. Pereira e Rafael R. Valcarcel, e Bilica Chorona, de Helena Lima, Isabelle Borges e Taline Schubach: exploram sentimentos e respeito às diferenças, e funcionam bem tanto na escola quanto em casa.

Depois de qualquer uma dessas leituras, uma roda de conversa com quatro perguntas simples já sustenta uma boa discussão:

  1. Como o personagem se sentiu na história?

  2. O que ajudou ele a se sentir melhor?

  3. Eu já senti algo parecido? Quando?

  4. Quem eu procuro quando me sinto assim?

Além dos livros, vale variar a linguagem: fantoches para dramatizar situações emocionais, música suave de fundo, e até expressão corporal. Desenhar ou dançar o sentimento que não sai em palavras.

Como conversar com os pais sem alarmar

Os pais não precisam saber que o mês trata de prevenção ao suicídio para apoiar o trabalho que a escola está fazendo. O segredo é comunicar em termos de educação emocional, não de saúde mental técnica.

Um bilhete simples já resolve. Algo como:

"Neste mês estamos trabalhando com as crianças o reconhecimento de sentimentos e a importância de pedir ajuda quando algo incomoda. Pedimos que em casa reforcem esse diálogo, perguntando como foi o dia e validando o que a criança sentir."

Uma tarefa de casa que envolve a família funciona ainda melhor do que um comunicado: pedir que a criança converse com os pais sobre um momento em que ficou triste e alguém a ajudou estende a conversa para dentro de casa, sem que os pais precisem "explicar" a campanha.

Se a escola tiver estrutura para isso, uma reunião ou oficina rápida com os pais reforça o porquê desse trabalho começar tão cedo: é nessa fase que a criança aprende a reconhecer e expressar emoções, desenvolvendo o autocuidado e criando laços de confiança que vão sustentá-la ao longo da vida.

Um mural com os desenhos das crianças, como a "rede de apoio" (quem eu procuro quando estou triste) exposto na entrada da escola também comunica o trabalho sem exigir nenhum texto técnico: os pais veem o resultado com os próprios olhos.

Em resumo

Trabalhar o Setembro Amarelo nos anos iniciais não é falar sobre suicídio, é ensinar, todos os dias do ano, que sentir tristeza é normal e que pedir ajuda é um gesto de coragem. A escola entra com a estrutura pedagógica, os livros e as rodas de conversa; a família entra reforçando esse diálogo em casa. Juntas, essas duas frentes constroem, desde cedo, a rede de apoio que vai proteger essas crianças no futuro.

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